Rota mata 3 pessoas em menos de 24 horas em SP em duas ações semelhantes

Casos aconteceram no Jardim Brasil Novo e Vila Prudente: suspeitos são perseguidos, abandonam carro, atiram e são mortos, sem ferir PMs e sem testemunhas

Ponte em que dois suspeitos foram mortos em ação da Rota na zona norte de São Paulo | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Quando se entra na Rua Carlota Norberg, Jardim Brasil Novo, zona norte de São Paulo, a impressão é de que a cidade acabou. Próximo à divisa com Guarulhos, na Grande São Paulo, e à rodovia Fernão Dias, rota para Minas Gerais, o espaço tem matagais e aguarda a inauguração da ala norte do Rodoanel, que passará logo acima. Há uma ponte que liga o Jardim Bebê e o Condomínio Paris, pequenas áreas que foram povoadas nos últimos anos. As casas estão pelo menos 400 metros distantes da ponte, onde a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa mais letal da Polícia Militar do Estado de São Paulo, matou duas pessoas na madrugada de quinta-feira (10/10). As vítimas não foram identificadas.

Ninguém presenciou a suposta troca de tiros, conforme relatado pelos policiais. Afinal eram 3h e não há iluminação no ponto onde teria acontecido o tiroteio. “Só ficamos sabendo porque passou no jornal. Quando abri o comércio já não tinha mais nada lá”, conta uma moradora do Bebê. Ninguém deu conta de qualquer disparo no horário. “Saí de casa eram 6h e não tinha mais nada ali, nenhum corpo. Tiraram bem rápido”, comenta outro morador da região enquanto lava o seu carro. O dono de um bar vai na mesma linha. “Você sabe como é a Rota, né? Não vimos nem ouvimos nada”, diz, dando a breve conversa por encerrada.

A versão oficial é de que os policiais patrulhavam a região e se depararam com suspeitos ocupando um veículo roubado, modelo Corsa. Os PMs não apontam se usaram o rádio para solicitar informações do carro e identificar o registro de roubo. A perseguição teria sido feita pela Avenida Coronel Sezefredo Fagundes quando os suspeitos entraram na Rua Carlota Norberg, próximo à unidade Cantareira da Associação Atlética Banco do Brasil.

Local ainda apresentava sangue das vítimas | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Embaixo da ponte, os homens teriam batido e abandonado o carro, e então saído atirando na direção dos policiais, que revidaram e mataram dois. Nenhum policial foi ferido. “No Corsa foram encontradas porções de entorpecentes que foram encaminhadas para perícia. Foi identificado que a placa do automóvel havia sido adulterada com fita adesiva. Após pesquisas, foi constatado que o veículo havia sido furtado”, explicou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB).

Socorridos pelo resgate do Corpo de Bombeiros, os dois homens morreram no local. Ainda havia marcas de sangue e luvas descartáveis jogadas no chão da cena do crime quando a reportagem esteve no local, por volta de 13h desta sexta-feira (11/10). Os moradores têm medo de falar seus nomes. Enquanto a Ponte registrava o sangue na calçada, dois homens pararam em um carro. O motorista falou: “Feia a coisa, hein?! Difícil saber o que aconteceu. Você é jornalista? Precisa de ajuda?”. O desfecho com tom duvidoso quando confirmada a presença da imprensa fez com que a reportagem saísse do local.

Enquanto quem mora nas redondezas não ouviu nem viu a dinâmica dos fatos, a polícia não dá maiores explicações sem ser através de sua assessoria de imprensa. O 73º DP (Distrito Policial) é o mais perto da região, localizado na Avenida Paulo Lincoln do Valle Potin, no Jaçanã, distante quase 7 quilômetros do lugar das duas mortes cometidas pela Rota.

Segundo o delegado Germano de Souza Willveit, que assumiu a área há duas semanas, nenhum registro foi feito na delegacia. Willveit integra a nova equipe do 73º DP depois que ela foi inteiramente substituída em decorrência da prisão de 10 policiais da delegacia acusados de envolvimento em um caso de extorsão.

A informação é de que o delegado plantonista solicitou apoio do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), responsável por investigar mortes cometidas pela PM.

Luvas usadas no atendimento foram deixadas na via | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

“É comum solicitar esse apoio e, como o DHPP atendeu, o registro foi feito por eles, não aqui”, explicou à Ponte, dizendo que apenas o grupo especializado da Polícia Civil poderia fornecer informações. No entanto, nenhum investigador aceitou conversas com a reportagem, que esteve na sede do DHPP na tarde desta sexta-feira (10/10).

A nota enviada pela SSP ignorou os questionamentos feitos pela reportagem. O arquivo se limita a apresentar o histórico da ocorrência, presente no B.O. registrado no DHPP. “As armas dos policiais foram apresentadas e encaminhadas à perícia, assim como as armas dos autores, dois revólveres calibre 38. O caso foi registrado pelo DHPP que realizou perícia no local”, informou a SSP.

Rota matou na zona leste de SP

Situação similar ocorreu com outro caso envolvendo morte cometida pela Rota em outra região de São Paulo. Na Vila Prudente, zona leste, Dledison Martins da Silva, 30 anos, ocupava um carro modelo HB20 de cor marrom quando teria gerado suspeita. Os homens da Rota não detalharam no registro da ocorrência qual ação teria chamado a atenção. Na versão deles, ao darem sinal de parada, o homem fugiu e o roteiro foi bastante similar ao ocorrido no Jardim Brasil Novo: na Avenida Doutor Francisco Mesquita, o homem teria abandonado o carro, fugido à pé e atirado na direção dos PMs, que não se feriram. “Respondendo à injusta agressão, o mataram”: assim consta em novo histórico no registro de ocorrência enviado pela SSP como posicionamento oficial da pasta sobre este caso.

O homem também morreu após socorro do resgate do Corpo de Bombeiros, assim como os dois baleados na zona norte. O caso aconteceu por volta de 20h de quinta-feira (10/10) e Dledison ocupava um veículo que fora roubado no dia anterior de uma administradora, segundo informação da SSP. O DHPP também é responsável por investigar as dinâmicas da morte provocada pela Rota na zona leste.

Local é próximo de dois pequenos bairros, um deles ao fundo: o Jardim Bebê

Histórico de semelhanças

Detalhes de outras mortes cometidas pela Rota dificilmente são passados de forma oficial. Quando quatro jovens foram mortos em uma suposta perseguição ocorrida do Tatuapé, na zona leste da capital, até a Via Dutra, no caminho o município vizinho Guarulhos, as informações oficiais os descreviam como criminosos que ocupavam um carro que “apresentava envolvimento anterior em crimes e vinha sendo monitorado pela PM”. Os policiais não esclarecem quais seriam estes crimes supostamente praticados nem os monitoramentos feitos.

No entanto, uma prova coletada pela família do motorista do HB20 envolvido na ação da Rota, Vitor Nascimentos Barboza Alves, 21 anos, colocou em xeque a versão dos PMs. Consulta de celular mostra a localização do aparelho de Vitor na delegacia de São Mateus, bairro paulistano em que ele nasceu e morava até então, meia hora depois da ação na Dutra, ocorrida às 21h10. De acordo com o aplicativo Google Maps, o caminho de 36,2 quilômetros entre São Mateus e o 7º DP de Guarulhos, onde o caso foi registrado, leva 1h15 para ser feito numa noite de quarta-feira, no mesmo horário em que a perseguição ocorreu.

Um relatório da Ouvidoria da Polícia de SP, divulgado em setembro, apontou excesso na ação da Rota em ocorrência com 11 mortos na cidade de Guararema, na Grande São Paulo, em abril deste ano. Segundo relatório da Ouvidoria da Polícia de São Paulo, quatro dos 11 suspeitos morreram sem reagir à ação dos policiais, o que aponta para “excesso de legítima defesa”, como descreve o ouvidor das polícias, Benedito Mariano. Um dos homens foi atingido por disparos 10 vezes.

Rogério Machado Coelho, Carlos Eduardo Leonel, José Cláudio Borges de Castro, Ezequiel dos Santos, Jean Santos Souza, Claudinei Carvalho Nunes, Juceir da Silva Rodrigues, Marcos Bueno de Campos, Robson de Oliveira, Rodrigo Camargo dos Santos e Tiago Clementino dos Santos morreram na operação da Rota em parceria com o COE (Comando e Operações Especiais). Os PMs envolvidos nestas mortes foram homenageados pelo governador João Doria antes mesmo de os laudos apresentarem a suspeita de excesso.

“Nós reconhecemos que a polícia enfrentou uma quadrilha fortemente armada. Essa é a legitimidade da ação. Mas, evidentemente, houve excessos. No final, a gente conclui que não levou em conta o conceito de proporcionalidade e qualidade”, explica Mariano, sobre a ação em Guararema.

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