Acuado, Bolsonaro aposta últimas fichas na radicalização

Na noite de terça-feira (29), o Jornal Nacional fez uma das revelações mais bombásticas do caso Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março de 2018 no Rio de Janeiro. Segundo os registros da portaria do condomínio onde Bolsonaro e o principal suspeito do crime têm casa, Élcio de Queiroz – o outro suspeito – conseguiu entrar na propriedade depois de interfonar para a casa do então deputado federal pedindo autorização.

Isso tudo poucas horas antes de, segundo a polícia, ter dirigido o Cobalt que emparelhou o veículo em que estavam Marielle, o motorista Anderson e mais uma assessora. Embora o porteiro afirme ter ouvido uma voz que identificou como sendo à do “Seu Jair”, a Câmara dos Deputados registra sua presença em Brasília.

Seja como for, Bolsonaro sentiu o golpe. Mesmo tarde da madrugada na Arábia Saudita, subiu o tom – já naturalmente bélico – para atacar o Ministério Público, o governador Wilson Witzel, a Rede Globo, o próprio partido e o PSOL. Aos berros, chamou a veiculação de “patifaria” e ameaçou não renovar a concessão pública da TV Globo, mais uma vez acusada de agir contra o Brasil. Bolsonaro também pediu para falar antes com o delegado que conduz as investigações.

É difícil saber o quanto há de consistente nessas ameaças. O fato, no entanto, é que os últimos dias têm sido de intensa radicalização. Um ano depois de vir à tona o vídeo em que ensina alunos de um cursinho a como fechar o Supremo Tribunal Federal, Eduardo Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara para ameaçar os que têm a pretensão de se revoltar contra o governo como ocorre no Chile. Olavo de Carvalho também tem figurado com frequência nas redes de Eduardo e Carlos com uma retórica de eliminação pura e simples do pensamento dissidente.

Na segunda-feira (28), o presidente chegou a se desculpar pela publicação de um vídeo em que hienas, representadas por diversas instituições e inimigos imaginários da presidência – como STF, “isentões” e, de novo, a Globo –, cercam o leão, que seria Bolsonaro.

Não é preciso elaborar muito para notar que, nesse caso, as desculpas foram puro jogo de cena. Bolsonaro apagou o vídeo, mas parte significativa do círculo mais próximo do presidente o manteve no ar e Filipe Martins, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, reforçou o seu conteúdo atacando – diretamente do terceiro andar do Palácio do Planalto – o que chama de “establishment”.

O objetivo é claro: empurrar as instituições para o corner, com pequenos gestos de moderação para evitar reações muito enérgicas. Uma semana depois, Bolsonaro volta a atacá-las, eventualmente recua um pouco, se desculpa mais uma vez. E de novo. E de novo. Até que, na utopia bolsonarista, não tenha mais com quem se desculpar. Nesse processo, o centro do debate já se deslocou mais um pouco em direção ao extremo.

Tudo isso a poucos dias de o Supremo decidir o destino de alguns milhares de presos – incluindo o ex-presidente Lula – que recorrem de sentenças condenatórias, com grandes chances de o entendimento atual ser revertido em favor dos réus.

Bolsonaristas se articulam para manifestações por todo o país. Em todas as que aconteceram desde o período eleitoral, desfilaram naturalmente pedidos explícitos de golpe. O histórico bolsonarista é quilométrico nesse sentido. Que eles gostariam de executá-lo, já não restam mais dúvidas. Resta saber até onde eles estão dispostos a ir rumo a esse objetivo.

Desde os primeiros dias de governo, Bolsonaro só tem perdido apoio. Hoje ele não é unânime nem no próprio partido – aliás, longe disso. Os escândalos acumulam-se rapidamente, um atrás do outro. Acuado, o presidente partiu para a radicalização. Na melhor das hipóteses, intimida os outros poderes e emplaca sua agenda autoritária. Na pior, cai atirando e posando como vítima do sistema. É bom prestar atenção no que vem por aí.

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